História


Desde o final da Guerra da Secessão, muito se tem dito e escrito por todos os que desejam encontrar a verdade sobre a guerra mais cruel e sangrenta da América do Norte.

Poucos se dão conta de que essa Guerra ceifou mais vidas, no todo, que todas as demais guerras de que participou a América do Norte. A Guerra da Secessão custou mais de 600.000 vidas e arruinou a economia Sulista. As marcas permaneceram para sempre. A imigração de Sulistas para o Brasil após a Guerra é um evento curioso e interessante: resultado direto da guerra.

Dessa onda de imigração, que deve ter chegado a 9.000 pessoas, originou-se a comunidade de descendentes dos imigrantes sulistas, conhecidos como “Os Confederados”. Os descendentes estão espalhados por todo o Brasil, mas a maior comunidade, e mais importante, está localizada no estado de São Paulo. Essa comunidade, fundada por sulistas, deu origem à cidade de Americana e sua cidade-mãe, Vila de Santa Bárbara (hoje denominada Santa Bárbara D’Oeste). Ambas a poucos quilômetros de distância, são o centro de gravidade da comunidade de descendentes dos sulistas no Brasil. Desde 1954, a Fraternidade Descendência Americana tem ali a sua sede.

Os descendentes reunem-se no Cemitério do Campo todo segundo domingo de cada trimestre (janeiro, abril, julho e outubro), para um culto, discussão de assuntos relacionados à Fraternidade e um lanche tradicional. Cada família traz alimentos e bebidas, e todos se deliciam nesse almoço comunitário, com pratos típicos brasileiros e sulistas. Os mais velhos conversam em inglês com sotaque característico do sul do Estados Unidos, enquanto as crianças brincam, falando em português e pouco inglês.

O cemitério do campo está localizado na zona rural, cercado por lavouras de cana-de-açúcar. Fica a 16 quilômetros de Americana e Santa Bárbara D´Oeste. Essas duas cidades distam 160 quilômetros da cidade de São Paulo, a maior do país e capital do estado de São Paulo.

“Soldier rest!
Thy warfare o´er.
Sleep the sleep that knows no breaking Days of toil or nights of waking.”

“Soldado descansa!
Tua luta acabou.
Dorme o sono eterno, onde não há dias de fadiga, ou noites de vigília.”

Esta é a inscrição na lápide do Veterano Confederado Napoleon Bonaparte McAlpine, que se encontra no Cemitério do Campo entre outros Veteranos e líderes Confederados.

Desses, o mais proeminente e verdadeiro fundador da Colônia Confederada foi o Coronel William Hutchinson Norris, nascido em Oglethorpe, Geórgia. Ele mudou-se para o Alabama e posteriormente foi Senador pelo Texas, após viver vários anos em Dallas. O Coronel Norris era advogado, e é mencionado no livro “Reminiscences of Public Men of Alabama”.

Quando os “carpetbaggers” invadiram o Sul ao término da Guerra, o Coronel Norris reuniu sua família e rumou para o Brasil. O Imperador Dom Pedro II recepcionou os sulistas pessoalmente, graças aos contatos que o Coronel Norris tinha na Maçonaria e ao interesse que o Brasil tinha nas técnicas agrícolas refinadas que os Sulistas traziam, notadamente no cultivo do algodão . Ao contrário de algumas versões tendenciosas, os sulistas não imigraram numa tentativa frustrada de perpetuar a escravidão. Quando chegaram, o sistema estava em declínio no Brasil, e a escravidão seria pacificamente abolida em 1888.

O Coronel Norris, veterano da Guerra do México, tinha cerca de sessenta anos quando ocorreu a Guerra da Secessão. Seus filhos Reece, Frank, Robert e Clay lutaram pelo Sul. Robert Norris serviu no 15º Regimento de Infantaria do Alabama com Thomas J. “Stonewall” Jackson, no exército da Virgínia do Norte. Após 57 batalhas, apenas 247 dos 1250 do regimento sobreviveram. Robert foi ferido várias vezes e em 1864 foi capturado e enviado para uma prisão nortista, Fort Delaware.

Graças ao Sons of Confederate Veterans, temos informações sobre o serviço militar de muitos outros Veteranos Confederados. Por exemplo: Lucien e George Barnsley, do 5º Regimento de Infantaria da Geórgia, de Rome, Floyd County (Essa unidade era conhecida como Rome Light Guards. Lucien era capitão. George era oficial médico-ver a relação para maiores informações).

Os imigrantes adquiriram terras no estado de São Paulo a 22 centavos de dólar por acre, e também no Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro and Santa Catarina. Alguns foram para Santarém, Pará, para o Vale do Rio Doce e para Iguape, no litoral paulista, mas a maioria se estabeleceu na Vila de Santa Bárbara. Esta comunidade foi a mais importante, e originaria a cidade de Americana, hoje um centro têxtil e industrial.

O Cemitério do Campo, que se tornaria o centro espiritual da colônia Confederada no Brasil, foi fundado por causa das restrições que eram feitas a enterros de não-católicos em cemitérios municipais. Após a morte de Beatrice Oliver em 1868, os sulistas decidiram seguir a tradição e dedicar o “God’s Acre” como o local para o descanso de seus mortos. A velha fazenda dos Oliver era um local conveniente, e seu ponto mais elevado não era adequado à lavoura. Tornou-se, então, o cemitério não-oficial da comunidade e, em 1954, a Fraternidade Descendência Americana foi constituída para manter o cemitério. Anos depois, Ross Pyles doou o terreno legalmente para a Fraternidade. Durante seus primeiros anos na nova pátria, os sulistas, por razões culturais, evitavam mesclar-se com os brasileiros. Entretanto, com a evolução da comunidade e a chegada de novos imigrantes, eles tornaram-se brasileiros de fato e casaram-se com italianos, poloneses, alemães, holandeses, japoneses, russos e seus descendentes.

A imigração russa é um capítulo interessante da história brasileira. A apenas cinco quilômetros de Americana, foi fundada uma comunidade que se denominou Nova Odessa. Durante a guerra fria, os brasileiros espatavam-se com a ausência de hostilidade entre as duas colônias tão próximas, sem se darem conta de que os americanos não eram ianques e que os russos não eram comunistas!

Hoje, o Cemitério do Campo é o testemunho da mais bem-sucedida colônia Sulista fundada após a Guerra da Secessão. Alguns dos que imigraram para o Brasil retornaram aos Estados Unidos nos anos que se seguiram. Aqueles que permaneceram foram assimilados pela sociedade brasileira. Poucos dos que vivem hoje em Americana e Santa Bárbara D’Oeste conseguem ligar sua origem aos imigrantes Sulistas. Os descendentes daquelas 400 ou 500 famílias que permaneceram no Brasil estão espalhados pelo Brasil, e muitos vivem nas grandes cidades. Apesar disso, os Confederados conseguiram fundar e manter o Museu da Imigração em Santa Bárbara D’Oeste com o apoio das autoridades municipais, e a Fraternidade mantém-se muito ativa, com uma diretoria vibrante e numerosos associados. Hoje, os Confederados consideram-se brasileiros, e adotaram o idioma e os costumes locais.

Entratanto, ninguém consegue ir a uma reunião da Fraternidade sem ter uma estranha sensação de que algo está ausente… o coração sulista tão profundamente ferido nos campos de batalha da Guerra da Secessão.

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